PORTO | Teatro Nacional São João | 06.JAN – 28.FEV.2009
Info espaço: www.tnsj.pt
Instalação de João Mendes Ribeiro e Catarina Fortuna.

© Daniel Blaufuks
Daniel Blaufuks deslocou-se a Veneza a convite de Ricardo Pais, levando por companheiro de viagem a peça-problema que Shakespeare escreveu nos anos derradeiros do séc. XVI: O Mercador de Veneza. Autor do livro Sob Céus Estranhos – “memória de uma memória” de milhares de refugiados judeus de passagem por Portugal, em fuga da máquina de morte nazi e de uma Europa em chamas – e, ele próprio, neto de judeus polacos chegados a Lisboa em 1936, o fotógrafo esteve no célebre ghetto de Veneza e visitou solitariamente o quase secreto cemitério judaico do Lido (fundado no final do séc. XIV), seguindo os passos incertos daqueles que tantas vezes se viram condenados à errância e confinados à condição de hóspedes. Acompanhando e prolongando a reposição de “O Mercador de Veneza no TNSJ”, “Os Passos em Volta” expõe sinais, indícios e rastros da presença judaica na cidade que Shakespeare decidiu inventar.
Fonte: TNSJ
“Quando cheguei a Veneza, senti a sua presença. Esteve sempre perto de mim, nunca demasiado, mas também nunca muito distante. Nas pontes estava atrás de mim e ao lado enquanto esperava o vaporetto, ou mesmo já lá estava quando eu entrava em uma das muitas igrejas.
Em Veneza, pensei em Shakespeare e em Shylock e, claro, em Thomas Mann e Gustav Aschenbach. Mas não foi essa a razão por que a senti ou por que passei casualmente na sua rua. Mas foi por causa de Shylock que me desloquei ao velho cemitério judaico no Lido, bem perto do mar, nesse primeiro dia, um Domingo branco muito apropriado a esta visita. No gueto, tinham–me informado que só poderia lá entrar às três da tarde, com marcação e em grupo. E que, caso chovesse, as visitas seriam automaticamente canceladas. Foi quando virei à esquerda na curva do hospício que começou a pingar. Continuei a caminhar teimosamente e cheguei ao portão fechado do cemitério. Eram duas e meia e entretanto chovia torrencialmente. Olhei em volta e não vi ninguém. Mas não só existia uma campainha como também um horário de visitas diárias afixado, que não mencionava a possibilidade de chuva. A campainha soou estridente e o portão abriu-se. A chuva parou no momento em que entrei e o grupo nunca apareceu. Foi assim uma visita silenciosa, propícia ao meu estado de espírito e ao estudo dos nomes nas pedras, não que esperasse encontrar Shylock, embora existam vários Bassanos. Intrigante escolha, Shylock, um nome profundamente estrangeiro entre os venezianos.
Há pouco tempo, um jovem artista polaco comentou exactamente assim o nome que herdei dos meus avós polacos: “Ah, esse não é um nome polaco, mas sim judeu”. Estrangeiros no seu país, à semelhança de Shylock, sobre quem cai a pena de estrangeiro na cidade em que vive. O judeu como estranho, como o outro, vive connosco, mas não é um de nós… E, no entanto, Pórcia pergunta quem é o judeu e quem o mercador. Porque talvez eles sejam tão parecidos que não sejam reconhecíveis. E nós, que nos habituámos a ver e a imaginar Shylock como um estereótipo, como uma imagem de todos os preconceitos, um Jud Süß na sua versão nazi, com cabelos oleosos e nariz em gancho, estaremos talvez enganados. Não seria ele mais parecido com António, o mercador? Também, no início do nacional-socialismo, a um tio meu lhe perguntaram, nas ruas de Magdeburgo, o que fazia ele com um judeu a seu lado. Ao que teve de responder que o amigo era um colega cristão e que o único judeu ali era ele próprio.
Shakespeare não menciona que as portas do gueto de Veneza, o primeiro da Europa, eram fechadas entre o anoitecer e o amanhecer, e que os judeus europeus eram obrigados a usar estrelas amarelas ou vermelhas, como em Portugal, entre outras proibições e obrigações. Pensava em tudo isto e em quem tratamos hoje como forasteiros nas nossas terras comuns, enquanto caminhava pelas ruas de Veneza, rente aos canais, sentindo os passos em volta. Não foi preciso fugir dos turistas, porque eles se afastavam de mim, pressentindo provavelmente essa presença que não me abandonava. Um fim de dia, por mero engano, pedi dois Martinis no café na esquina da praça de San Stefano. Saí de Veneza na manhã seguinte, atravessando de comboio a laguna, e só então pensei nestas fotografias que agora aqui estão. “
Daniel Blaufuks (texto retirado do postal de divulgação)
Daniel Blaufuks
Descendente de uma família judaica, Daniel Blaufuks nasceu em Lisboa, em 1963. Iniciou os estudos de fotografia no Centro de Arte e Comunicação Visual, em Lisboa, prosseguindo no Royal College of Art, em Londres, e no Watermill Center de Nova Iorque. Info fotógrafo: www.danielblaufuks.com